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Archive for janeiro \30\UTC 2009

(Nova velha estória)

João Guimarães Rosa

Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos em juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.

Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.

Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: – “Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou”. A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.

E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeiinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.

Demorou, para dar com avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:

– “Quem é?”

– “Sou eu…” – e Fita-Verde descansou a voz. – “Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.”

Vai, a vovó, difícil, disse: – “Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençõe.”

Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.

A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: – “Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.”

Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:

– “Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!”

– É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta…” – a avó murmurou.

– “Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!”

– É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta…” – a avó suspirou.

– “Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido!”

– “É porque já não te estou vendo, nunca mais, minha netinha…” – a avó ainda gemeu.

Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.

Gritou: – “Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…”

Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.

Quem nunca ouviu a história de Chapeuzinho Vermelho quando criança?

Só depois que entrei na Universidade foi que tive a oportunidade de conhecer a história de Chapeuzinho Vermelho contada pelos camponeses europeus, o que me impressionou tanto quanto a versão conhecida na minha infância. Com o passar do tempo, a história popular foi adaptada e escrita por Perrault e pelos irmãos Grimm. A primeira versão escrita por Perrault era uma história para adultos. Os irmãos Grimm alteraram seu conteúdo erótico e adaptaram às crianças. Como amante da literatura, não poderia deixar de fazer referência à versão de João Guimarães Rosa, Fita Verde no cabelo.

A versão de Guimarães Rosa sobre Chapeuzinho Vermelho é muito criativa. Pode-se dizer que é um pastiche enriquecido pela nossa língua e cultura brasileira, por meio do doce em calda, dos neologismos. A fita, na literatura, tem vários significados e um deles é o de desabrochar. O Capuz Vermelho da história original remete à menstruação, enquanto a fita verde, à imaturidade da menina. Quando ela perde sua fita verde no caminho, entende-se que ela também perdeu a inocência. O narrador confirma esse entendimento no final da história, quando afirma que: “Fita-Verde mais se assustou como se fosse ter juízo pela primeira vez”.

Para quem tiver a curiosidade de ler a versão contada pelos camponeses europeus acesse aqui. Um abraço para todos e um bom fim-de-semana!

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Casulo

Maurício Correia de Mello

Setembro de 2007

Não sou capaz de registrar estas palavras em papel. Só me resta decorá-las uma por uma, na esperança de que um dia isso seja possível. Como um diário, escrito na minha mente. Claro que, assim, ninguém tem acesso. O meu diário não poderia ser mais íntimo. Meu cérebro é uma caverna escondida, esperando ser descoberta por arqueólogos.

Estamos na praça de alimentação de um shopping center. As pessoas passam por mim sem me olhar. Não é como se eu fosse uma peça de decoração, pois esta é feita para ser notada. Além disso, os vasos e cadeiras que nos circundam são obstáculos. Às vezes as pessoas tropeçam nestes objetos. Contudo não tropeçam em mim. Desviam o olhar e o corpo. Admito que não deve ser uma visão agradável, uma pessoa torcida feito uma árvore do cerrado, balançando sem vento, a face como um nó na madeira.

Só ele me vê. Minha cabeça pende imóvel, mas minhas mãos tremem. Ele se agacha e começa a puxar assunto. Pergunta-me as horas. Depois indaga se eu tenho fogo. Eu sorrio por dentro. Convida-me para dançar. Minha enfermeira grita com ele que eu não sou um brinquedo, que é uma falta de respeito. Mas ele a ignora e, ao som ambiente, começa a rodar minha cadeira com agilidade. A enfermeira tenta impedi-lo mas ele se desvencilha. Quando ela repara o riso no meu rosto, desiste e apenas fica observando. Eu não consigo falar nada. Não tenho controle dos meus músculos, nem para falar, nem para teclar num computador. Consideram-me deficiente mental. Mas eu apenas estou aprisionada num corpo inútil, que sequer permite minha comunicação com o mundo exterior. Aquela dança se completa na minha mente, onde estou de mãos dadas com meu par.  Meus pés são desenterrados como raízes arrancadas. Não estou mais na paisagem árida do cerrado. Estou ao pé de uma cachoeira onde ouço a música de uma orquestra de pássaros. Todos param para admirar a leveza e precisão de nossos passos.

Ele me conta que basta olhar nos meus olhos para saber o que eu quero dizer. Afirma ver a pontinha da asa rompendo o casulo. Diz para a enfermeira que me conhece das sessões de fisioterapia. Eu não me lembro. Continua a se encontrar comigo até que meus pais descobrem. Dizem provalmente tratar-se de um aproveitador, de olho no dinheiro da família. Tenho vontade de gritar com eles, defendendo-o. Ao invés disso apenas emito um ruído grotesco. E lágrimas. Meus pais afirmam que ele está me fazendo mal. Não conversam comigo, pois acham que eu não entendo. Falam para a enfermeira. Proibem-me de vê-lo. Mas a enfermeira está convencida de que não há mal e não respeita a ordem.

Ela me deixa regularmente no apartamento dele e vai me buscar depois de duas horas. Às vezes passa pela minha cabeça ele ser algum tipo de louco, com  um desvio de comportamento. Mas ele me coloca na banheira morna, depois me enxuga e massageia meu corpo, especialmente minhas pernas, até eu parar de tremer. E faz amor comigo delicadamente.

Passamos vários meses nesses encontros. Até que ele conta não me amar mais. Diz perceber meu sofrimento mas não poderia ficar comigo se não fosse por amor. Afirma ter-se apaixonado, mas esta paixão passou. Diz que é comum as pessoas terminarem relacionamentos e sofrerem. Comigo não poderia ser diferente.

É melhor a sinceridade. Mas encharco meu travesseiro. Não é só tristeza. Afinal, sofrer também é estar vivo. E só quem teve alguém ao seu lado pode vivenciar o luto da separação. Quando, passadas algumas semanas, sinto o bebê chutar, penso na ironia. O casulo não é mais tão inútil. Acalenta o corpinho de uma criança perfeita. Se ela tiver um pouco de sorte poderá, como o pai, enxergar asas coloridas através da seda cinza.

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eleanor_roosevelt_1949Não podemos esquecer as grandes mulheres, como Anna Eleanor Roosevelt. Nascida em 11 de outubro de 1884, foi casada com Franklin Delano Roosevelt, ex-Presidente dos EUA.

Ela não foi uma primeira dama comum, envolveu-se pessoalmente com questões humanitárias durante a II Guerra Mundial, trabalhando na Cruz Vermelha. Também tornou-se militante na defesa dos direitos humanos. Após a morte de Roosevelt, foi designada embaixadora dos EUA na ONU. Ajudou a escrever a Declaração Universal dos Direitos Humanos e, mais que isso, foi essencial na articulação para que esta fosse proclamada pelos países.

Embora a Declaração não tenha força de Convenção Internacional, Eleanor convenceu os integrantes da ONU de que era melhor proclamá-la logo, como Declaração, pois seria quase impossível que ela fosse editada em forma de Convenção. A sua visão mostrou-se acertada, pois este documento assumiu enorme importância no Direito Internacional, sendo referenciado e, portanto, legitimado, em diversas normas internacionais.

Existem rumores de que Eleanor teve uma relação afetiva duradoura com a jornalista Lorena Hickok. Esta possível bissexualidade, embora seja apenas uma hipótese, é compatível com a mente aberta da ex primeira-dama americana e com a sua atuação em defesa das chamadas minorias (algumas na verdade são maiorias).

O princípio da não-discriminação está em destaque na Declaração, logo no seu artigo II: “Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua,  religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição”. Tal artigo é ainda reforçado pelo artigo VII.

Estamos todos torcendo pelo sucesso do Presidente Barack Obama, de forma que ele passe à história como um grande líder mundial. Mas também torcemos para o sucesso das mulheres próximas a ele, como a primeira-dama Michele Obama, e a ex primeira-dama, Hillary Clinton, agora Secretária de Estado.

Eleanor Roosevelt morreu aos 78 anos, em 7 de novembro de 1962

Ler também A luta das mulheres pela igualdade de direitos

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orfaos-do-eldorado1A novela do escritor Milton Hatoum , Órfãos do Eldorado, despertou-me o interesse pela história da cidade de Manaus, pela expectativa de alguns brasileiros realizar o sonho de um Eldorado amazônico, por meio da seiva da seringueira e do crédito inglês. Fiquei com um gostinho de quero mais, ou seja, queria que o autor se aprofundasse mais ao contar a história dessa região e de seus habitantes. Nessa narrativa há oportunidade para se desenvolver um romance histórico.

Outro ponto que gostaria de abordar é sobre a índia, Dinaura, pela qual o narrador é apaixonado. Ela não tem voz na narrativa e o que sabemos a seu respeito é que está entre as órfãs das carmelitas em Vila Bela, que lê romances e enfeitiça Arminto. Sei que é a representação de uma personagem absolutamente excluída na vida real, mas na ficção, eu, leitor, queria muito ouvir sua voz. Imagino como seria interessante saber o que pensa, como é seu olhar diante do outro, o civilizado. A voz feminina que mais prevalece na novela é da mulher que criou Arminto, Florita. Mesmo assim uma voz quase inaudita, mas objetiva e visionária, que tenta, sem sucesso, advertir Arminto sobre a tendência de escolher um caminho desastroso. Recomendo os livros do autor que já li: Órfãos do Eldorado e Dois irmãos.

Órfãos do Eldorado, Milton Hatoum, Ed. Companhia das Letras, 107 pag.

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A polêmica instalação do artista Cai Guo-Qiang, “Head On”, em exibição no Museu Guggenheim de Nova Iorque, como toda obra de arte, comporta muitas interpretações. A mais irônica é a de que simboliza os lobos de Wall Street, que encontraram um muro.

Independente da interpretação, a sensação de estranheza é evidente.

Felizmente os lobos são sintéticos.

Cai Guo-Qiang ficou conhecido por promover eventos artísticos com explosão de fogos de artifício coreografados, como o mostrado na abertura das Olimpíadas de Beijing.

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Wilheim Reich, no livro “O Assassinato de Cristo”, fala de uma espécie de peste emocional, que ataca a própria capacidade de amar do homem, como uma doença que ataca o sistema imunológico. Esta doença teria causado o assassinato de Cristo, Giordano Bruno, Gandhi, Martin Luther King, e muitos outros. Mas alguns não chegaram a ser mortos, foram exilados, expulsos de suas casas. Atacados moralmente.

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Charles Chaplin, em New York, aos 83 anos

Charles Chaplin foi uma dessas pessoas. Chaplin não tinha medo de ser afetado pela loucura que acometeu sua mãe e sua avó. O que o perturbava era a sensação de não ter sido capaz de contar uma história com a competência e precisão que gostaria. Uma história, provavelmente, que portasse a mensagem que une todos os seus filmes: O amor, a doçura, a afeição. Chaplin era um perfeccionista. Ninguém pode imaginar uma maneira melhor de contar as histórias que ele contou. Nasceu no mesmo ano que Adolf Hitler, com quatro dias de diferença. Sua resposta ao ditador sanguinário foi  “O Grande Ditador”, seu primeiro filme falado. Não era sobre Hitler, e sim sobre o Vagabundo tomando seu lugar. Esta obra foi o pretexto para taxá-lo de comunista, acusação que resultou na sua expulsão do EUA. Só retornou aos 83 anos, vinte anos depois, para receber uma premiação especial do Oscar. Voltou para a Suíça logo depois, onde morreu aos 88 anos. A injustiça do tratamento que ele recebeu do Estado americano, por meio de alguns de seus representantes, é brutal. A sociedade americana foi omissa e não o defendeu. Mas era uma época de caça às bruxas, quem o defendesse seria também perseguido. Muito poucos tiveram coragem de enfrentar esta covarde campanha de perseguição.

Albert Einstein foi outro gênio perseguido nos EUA, vítima da mesma peste emocional. Dois pacifistas que sofreram violentos ataques por defenderem a paz e união dos povos.

Mas Reich profetizou que, enquanto a peste não for exterminada, Cristo continuará sendo assassinado, por meio do assassinato de todos os que praticarem o verdadeiro amor. Ele próprio foi vítima desta peste. Em 1956, Reich foi detido por se recusar a comparecer ao Tribunal para comprovar os efeitos terapêuticos dos acumuladores de orgônio, uma polêmica invenção sua. O sistema foi implacável e recusou todos os recursos judiciais para soltá-lo. Menos de um ano após sua prisão, morreu na cadeia.

Trecho do discurso proferido em O Grande Ditador: “Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades.”

O discurso pode ser lido na íntegra aqui.

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Jorge recebeu um telefonema no meio da noite. Era seu irmão, Carlos, que não lhe procurava há cinco anos.  Estava muito doente. Precisava de um rim novo.  Será que seu irmão poderia doar um dos seus rins? Jorge disse-lhe que precisavam conversar sobre isso pessoalmente. Desligou o telefone e pensou na vida diferente que ambos viviam. Jorge levava uma vida regrada, sem excessos, alimentava-se com cuidado, praticava exercícios. Carlos, ao contrário, embebedava-se diariamente. Comia muita gordura e nenhum vegetal. Seus rins não suportavam mais, corria o risco de ficar cego e passar o resto da vida preso a uma máquina de hemodiálise. Encontraram-se em um restaurante. Carlos pediu cerveja e uma picanha bem gorda. Vendo ao que seu rim seria submetido, Jorge hesitava em dar sua resposta. E você, o que faria?

A situação descrita no problema foi inspirada em fato real, contado na revista Seleções de dezembro de 2008.

Mais dilemas éticos aqui.

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