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Archive for the ‘dicas literárias’ Category

resistenciaAgnès Humbert teve a chance de fugir para o sul da França, antes que Paris fosse invadida pelos nazistas. Também poderia continuar com seu trabalho de bibliotecária, apenas observando a colonização de seu país. Mas ela sentiu que enlouqueceria se não fizesse alguma coisa para reagir. Em Paris, ela reuniu-se a uma dúzia de companheiros com a mesma sensação. O plano era simples, uma pequena organização com o objetivo apenas de trocar notícias, redigir e distribuir panfletos. Mas parte do grupo pagaria com a própria vida a reação. Eles sabiam que isto poderia acontecer mas não recuaram.

Agnés Humbert sobreviveu à escravidão. Foram anos de sofrimento em que ela lutou para manter a sanidade e um mínimo de dignidade. No livro “Resistência” ela relata os anos em que passou por esta provação.

A pergunta que me faço é como reagiríamos na situação vivida por Agnès. Será que teríamos sua força e coragem? A força e a coragem de uma mulher que não escolheu estar em guerra, mas escolheu defender a sua pátria.

”As mulheres sempre perdem a guerra. Não a querem, mas a perdem. Perdem quando estão no caminho dos exércitos e se tornam botim. Perdem quando batalham em silêncio nas cidades esvaziadas dos seus homens, para manter sólida a retaguarda e conservar a ordem do país. Perdem quando recebem os seus homens num caixão ou quando eles voltam com o equilíbrio despedaçado. Perdem quando se apaixonam pelo inimigo e quando o inimigo se apaixona por elas.”

Trecho do prefácio de Marina Colsasanti

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gleiserMarcelo Gleiser atingiu uma certa maturidade literária nesta comovente biografia de Johannes Kepler (1571-1630). A trágica vida do cientista é contada de uma forma envolvente e poética. A morte dos filhos, da mulher, a mãe acusada de bruxaria pela inquisição, as doenças, as guerras, tudo isso como pano de fundo para as maravilhosas descobertas de Kepler a respeito da posição da terra no sistema solar e o movimento dos planetas.

É incrível a resistência deste homem às adversidades, que vontade ferrenha na busca incessante pela verdade. Kepler lia as escrituras divinas no original: as estrelas e o céu. O Deus/Natureza revelou, não sem resistência, alguns de seus segredos a este gênio da humanidade. Mas ele mereceu a revelação. Sorte nossa, que pudemos compartilhá-la.

Quanto ao autor, em pesquisa no Google e no Wikipedia sempre encontramos referências a um certo professor Roberto Martins, que dedicou um artigo a mostrar imprecisões no primeiro livro de Gleiser, “A Dança do Universo”.  O que eram realmente incorreções, foram corrigidas na 2ª edição, com agradecimentos por terem sido apontadas. Mas muitas das alegações referiam-se a estilo de escrita, e quanto a isto não existe certo ou errado. É neste ponto que o professor perde um pouco da razão e mostra um certo ciúmes ou inveja. É certo que ele acabou ganhando uma certa fama, por contestar o famoso Marcelo Gleiser. Nos livros seguintes, cada vez melhores, não houve mais incidentes como este. Mas o fato é sempre apontado para atacar a visão não religiosa de Marcelo Gleiser. Como temos dito aqui, fundamentalismo não fica bem nem para a ciência nem para a religião.

É hora de lembrarmos do pensamento tolerante de Kepler, que tentou encontrar o melhor das religiões cristãs, em franca cisão, na tentativa de reuní-las. Mas a voz da razão era ignorada, como até hoje o é.

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leite-derramadoLeite Derramado, novo romance de Chico Buarque, chega às livrarias com a história de um homem muito velho no leito de hospital. O ancião, num extenso monólogo, conta a história da sua vida, da sua família, do seu único amor, de forma incerta, às vezes repetindo-a em diferentes versões. A memória do narrador se destaca como peça fundamental do enredo. Esta é inexata e incompleta, muitas vezes preenchida pela imaginação.  O texto de Chico é construído, segundo Leyla Perrone-Moisés, de maneira primorosa, tanto no plano narrativo como no plano de estilo. Há, a nosso ver, alguma semelhança com o romance de Machado de Assis, Dom Casmurro, em que Bentinho narra a história de sua família, sua infância e Capitu, seu único amor. O narrador de Leite Derramado conta-nos que Matilde, sua esposa, era uma jovem alegre e bonita, adorava ouvir maxixe e samba na vitrola, o que desperta nele o ciúme. Para explicar o sumiço da esposa depois do nascimento da filha, o narrador convence-se que ela o traiu e fugiu com um estrangeiro, entre outras versões. Bentinho, em Dom Casmurro, tenta convencer seus leitores de que Capitu o traiu. Não seria uma semelhança interessante? O discurso do ancião revela muitas vezes a sua dificuldade em narrar os fatos dolorosos de sua vida, como a morte do pai e a perda da esposa. E a espontaneidade do narrador se perde diante dos não-ditos e da ironia, elementos também encontrados no estilo de Machado.

Fazer essa relação entre Machado e Chico engrandece ainda mais o romance. Leiam e confiram!

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scott-e-zeldaA adaptação para o cinema do conto “O Curioso Caso de Benjamin Button” renova o interesse sobre a obra do escritor norte-americano, conhecido pelo romance “O Grande Gatsby”. A vida de F. Scott Fitzgerald foi bastante conturbada. Era alcólatra e sua mulher, Zelda, sofria de esquizofrenia, tendo sido internada várias vezes. Ambos viviam a vida como se cada dia fosse o último, o que condizia com os loucos anos 20. Ele morreu de colapso cardíaco aos 44 anos, sendo sepultado quase anonimamente.

A adaptação para o cinema, em que Bejamin é vivido por Brad Pitt, foi muito comentada. Indicado para 13 Oscars, o filme acabou ganhando 3, em categorias menos importantes. Mas a obra cinematográfica aproveita, praticamente, apenas a ideia principal, a de alguém que vive no sentido contrário do tempo.

Todavia, mesmo esta ideia, no filme, é bastante diferente do conto. Enquanto no filme, somente o corpo de Benjamin é velho ao nascer, na obra literária ele nasce com o corpo e a mente de um velho e, ao rejuvenescer, com o passar dos anos, vai se tornando menos experiente e mais imaturo. Considero este aspecto importante pois indica uma desvantagem no rejuvenescimento.

Mas, tanto o filme quanto o livro, tratam de uma questão comum ao ser humano. O tempo que passa e a velhice que chega para todos. Esta é uma questão que incomodava Fitzgerald, e que provavelmente estava na origem do estilo de vida que ele levava. Não por acaso o escritor admirava outro autor, que também escrevera sobre a velhice, Oscar Wilde. No famoso romance “O Retrato de Dorian Gray”, o personagem principal permanece jovem, enquanto seu retrato envelhece.

No filme estrelado por Brad Pitt, Benjamin participa de uma batalha naval contra submarinos alemães, situação inexistente no conto, em que há apenas uma rápida referência à participação de Benjamin na guerra dos Estados Unidos contra a Espanha, em 1898. Mas é exatamente nesta cena do filme que um dos personagens fala uma das melhores frases, que também não está no conto. É quando o capitão do rebocador, ferido de morte, declara que, quando chega a hora, você pode praguejar, ficar revoltado, mas não há mais nada a fazer senão aceitar a morte.

A inevitabilidade da morte une todos os seres humanos. Para quem tem ciência desta, os problemas têm outra perspectiva. O que parece importante para quem se acredita imortal é, muitas vezes, irrelevante para quem sabe que nossa estada no planeta é passageira.

Fitzgerald viveu intensamente e morreu jovem. Mas sua obra permanece.

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(Nova velha estória)

João Guimarães Rosa

Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos em juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.

Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.

Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: – “Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou”. A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.

E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeiinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.

Demorou, para dar com avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:

– “Quem é?”

– “Sou eu…” – e Fita-Verde descansou a voz. – “Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.”

Vai, a vovó, difícil, disse: – “Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençõe.”

Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.

A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: – “Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.”

Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:

– “Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!”

– É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta…” – a avó murmurou.

– “Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!”

– É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta…” – a avó suspirou.

– “Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido!”

– “É porque já não te estou vendo, nunca mais, minha netinha…” – a avó ainda gemeu.

Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.

Gritou: – “Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…”

Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.

Quem nunca ouviu a história de Chapeuzinho Vermelho quando criança?

Só depois que entrei na Universidade foi que tive a oportunidade de conhecer a história de Chapeuzinho Vermelho contada pelos camponeses europeus, o que me impressionou tanto quanto a versão conhecida na minha infância. Com o passar do tempo, a história popular foi adaptada e escrita por Perrault e pelos irmãos Grimm. A primeira versão escrita por Perrault era uma história para adultos. Os irmãos Grimm alteraram seu conteúdo erótico e adaptaram às crianças. Como amante da literatura, não poderia deixar de fazer referência à versão de João Guimarães Rosa, Fita Verde no cabelo.

A versão de Guimarães Rosa sobre Chapeuzinho Vermelho é muito criativa. Pode-se dizer que é um pastiche enriquecido pela nossa língua e cultura brasileira, por meio do doce em calda, dos neologismos. A fita, na literatura, tem vários significados e um deles é o de desabrochar. O Capuz Vermelho da história original remete à menstruação, enquanto a fita verde, à imaturidade da menina. Quando ela perde sua fita verde no caminho, entende-se que ela também perdeu a inocência. O narrador confirma esse entendimento no final da história, quando afirma que: “Fita-Verde mais se assustou como se fosse ter juízo pela primeira vez”.

Para quem tiver a curiosidade de ler a versão contada pelos camponeses europeus acesse aqui. Um abraço para todos e um bom fim-de-semana!

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orfaos-do-eldorado1A novela do escritor Milton Hatoum , Órfãos do Eldorado, despertou-me o interesse pela história da cidade de Manaus, pela expectativa de alguns brasileiros realizar o sonho de um Eldorado amazônico, por meio da seiva da seringueira e do crédito inglês. Fiquei com um gostinho de quero mais, ou seja, queria que o autor se aprofundasse mais ao contar a história dessa região e de seus habitantes. Nessa narrativa há oportunidade para se desenvolver um romance histórico.

Outro ponto que gostaria de abordar é sobre a índia, Dinaura, pela qual o narrador é apaixonado. Ela não tem voz na narrativa e o que sabemos a seu respeito é que está entre as órfãs das carmelitas em Vila Bela, que lê romances e enfeitiça Arminto. Sei que é a representação de uma personagem absolutamente excluída na vida real, mas na ficção, eu, leitor, queria muito ouvir sua voz. Imagino como seria interessante saber o que pensa, como é seu olhar diante do outro, o civilizado. A voz feminina que mais prevalece na novela é da mulher que criou Arminto, Florita. Mesmo assim uma voz quase inaudita, mas objetiva e visionária, que tenta, sem sucesso, advertir Arminto sobre a tendência de escolher um caminho desastroso. Recomendo os livros do autor que já li: Órfãos do Eldorado e Dois irmãos.

Órfãos do Eldorado, Milton Hatoum, Ed. Companhia das Letras, 107 pag.

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o-velho-e-o-marO livro “O Velho e o Mar” é considerado a obra-prima de Hemingway. É uma história incrivelmente simples, de um homem, num pequeno barco, que pesca um enorme peixe e passa dois dias lutando para trazê-lo à tona. Transformar uma trama tão prosaica num romance é tarefa para gênios como o escritor americano. E a história não é apenas um pretexto para lembranças em flash back. A maior parte da narrativa refere-se aos acontecimentos no próprio barco. Muitos consideram o livro inteiro como uma metáfora das lutas do homem para dominar a natureza ou sobre a força de vontade para atingir um objetivo.

Eu prefiro uma interpretação mais literal, em harmonia com o estilo jornalístico do autor. Vejo beleza na afirmação do valor da experiência e sabedoria dos mais velhos e na atribuição de dignidade a todo ser vivo, mesmo do peixe que é pescado.

A propósito do valor de todo ser vivo e do próprio planeta, assisti ao filme “O dia em que a terra parou”. Na filmagem original de 1951 (um ano antes de ser lançado o livro “O Velho e o Mar”) a ameaça ao planeta eram as armas atômicas. Na versão de 2009 o pretexto para a intervenção alienígena é a destruição do planeta Terra pela superexploração humana. O roteiro tem sérios problemas. Os alienígenas estariam acompanhando a evolução do ser humano há milhares de anos e resolvem agir para salvar o planeta da destruição, destruindo os destruidores, mas, só no último segundo, descobrem que o ser humano tem um outro lado, que cria e ama.

Apesar disso, o drama tem o mérito de combater um pouco a arrogância do ser humano que acredita que o planeta lhe pertence e que ele está no centro de tudo. Se o uso da natureza fosse feito com a sabedoria do velho pescador personagem de Hemingway não estaríamos em vias de um colapso ecológico.

Mas lembramos, como dito no texto Iwi Pita, que o ser humano dificilmente será capaz de exterminar toda a vida na Terra. Morreremos todos antes disso e a natureza permanecerá.

O Velho e o Mar, Ernerst Hemingway, Ed. Bertrand Brasil, 62ª Edição, 2008, Rio de Janeiro

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