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Archive for the ‘nanocontos’ Category

Partida

Por André Sá de Mello

William Turner - Mar, Barco, Tempestade, Água Pintor inglês (1775 - 1851)

William Turner - Mar, Barco, Tempestade, Água Pintor inglês (1775 - 1851)

Ele viu o barco partir em meio ao sombrio mar negro, uma luz cada vez mais tênue no horizonte. Desabou em lágrimas e soluços. Embora recusasse  a aceitar, sentia que havia sido a última vez que o veria.

Na primeira vez que viu o mar, um longo tempo atrás, vislumbrou um misto de medo, admiração e euforia. Ele se sentiu intimidado pelo infinito vácuo negro formado pelo mar e o céu sem lua ou estrelas. O mar era violento e ele não pôde entrar, mas a visão bastou para que adquirisse enorme respeito tanto pelo mar quanto pelo seu pai, e seu trabalho. Desde então, tem seguido o hábito de ver o pai partir na temporada de pesca.

Inúmeras vezes fez isso, sempre à noite, para que seu pai aproveitasse o vento terrestre. Orgulhoso, sonhava em seguir os passos do pai e aguardava ansioso seu retorno.

Porém algo havia mudado. Os peixes, escassos, eram pescados cada vez mais magros e doentes, e a família, essencialmente sustentada pelo pai, estava em crise. A mãe havia arranjado um emprego de péssimas condições, e ele estava cuidando da casa. Afundado em meio às dívidas, o pai havia partido em uma tentativa desesperada de salvar a família da falência.

E foi a última vez que ele o veria.

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Temendo a solidão e o abandono, desejou nunca se separar. Mas os anos passaram e o amor foi substituído por algo entre a irritação e a aflição. Desejou nunca ter desejado, mas este desejo não foi atendido. Sequer consegue se livrar da tatuagem com o nome do casal e a frase “unidos para sempre”.

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Casulo

Maurício Correia de Mello

Setembro de 2007

Não sou capaz de registrar estas palavras em papel. Só me resta decorá-las uma por uma, na esperança de que um dia isso seja possível. Como um diário, escrito na minha mente. Claro que, assim, ninguém tem acesso. O meu diário não poderia ser mais íntimo. Meu cérebro é uma caverna escondida, esperando ser descoberta por arqueólogos.

Estamos na praça de alimentação de um shopping center. As pessoas passam por mim sem me olhar. Não é como se eu fosse uma peça de decoração, pois esta é feita para ser notada. Além disso, os vasos e cadeiras que nos circundam são obstáculos. Às vezes as pessoas tropeçam nestes objetos. Contudo não tropeçam em mim. Desviam o olhar e o corpo. Admito que não deve ser uma visão agradável, uma pessoa torcida feito uma árvore do cerrado, balançando sem vento, a face como um nó na madeira.

Só ele me vê. Minha cabeça pende imóvel, mas minhas mãos tremem. Ele se agacha e começa a puxar assunto. Pergunta-me as horas. Depois indaga se eu tenho fogo. Eu sorrio por dentro. Convida-me para dançar. Minha enfermeira grita com ele que eu não sou um brinquedo, que é uma falta de respeito. Mas ele a ignora e, ao som ambiente, começa a rodar minha cadeira com agilidade. A enfermeira tenta impedi-lo mas ele se desvencilha. Quando ela repara o riso no meu rosto, desiste e apenas fica observando. Eu não consigo falar nada. Não tenho controle dos meus músculos, nem para falar, nem para teclar num computador. Consideram-me deficiente mental. Mas eu apenas estou aprisionada num corpo inútil, que sequer permite minha comunicação com o mundo exterior. Aquela dança se completa na minha mente, onde estou de mãos dadas com meu par.  Meus pés são desenterrados como raízes arrancadas. Não estou mais na paisagem árida do cerrado. Estou ao pé de uma cachoeira onde ouço a música de uma orquestra de pássaros. Todos param para admirar a leveza e precisão de nossos passos.

Ele me conta que basta olhar nos meus olhos para saber o que eu quero dizer. Afirma ver a pontinha da asa rompendo o casulo. Diz para a enfermeira que me conhece das sessões de fisioterapia. Eu não me lembro. Continua a se encontrar comigo até que meus pais descobrem. Dizem provalmente tratar-se de um aproveitador, de olho no dinheiro da família. Tenho vontade de gritar com eles, defendendo-o. Ao invés disso apenas emito um ruído grotesco. E lágrimas. Meus pais afirmam que ele está me fazendo mal. Não conversam comigo, pois acham que eu não entendo. Falam para a enfermeira. Proibem-me de vê-lo. Mas a enfermeira está convencida de que não há mal e não respeita a ordem.

Ela me deixa regularmente no apartamento dele e vai me buscar depois de duas horas. Às vezes passa pela minha cabeça ele ser algum tipo de louco, com  um desvio de comportamento. Mas ele me coloca na banheira morna, depois me enxuga e massageia meu corpo, especialmente minhas pernas, até eu parar de tremer. E faz amor comigo delicadamente.

Passamos vários meses nesses encontros. Até que ele conta não me amar mais. Diz perceber meu sofrimento mas não poderia ficar comigo se não fosse por amor. Afirma ter-se apaixonado, mas esta paixão passou. Diz que é comum as pessoas terminarem relacionamentos e sofrerem. Comigo não poderia ser diferente.

É melhor a sinceridade. Mas encharco meu travesseiro. Não é só tristeza. Afinal, sofrer também é estar vivo. E só quem teve alguém ao seu lado pode vivenciar o luto da separação. Quando, passadas algumas semanas, sinto o bebê chutar, penso na ironia. O casulo não é mais tão inútil. Acalenta o corpinho de uma criança perfeita. Se ela tiver um pouco de sorte poderá, como o pai, enxergar asas coloridas através da seda cinza.

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Maurício Correia de Mello
Agosto de 2007

Entro em casa como faço todos os dias. Procuro o interruptor. Apalpo no escuro por alguns segundos. Ele está mais abaixo e à direita do que eu pensara. Sigo para o quarto. No caminho, largo as chaves do carro na última prateleira da estante do corredor. Mas uma imagem fora de lugar me perturba. Volto à sala. No canto, sobre a mesinha, um vaso de murano, azul e transparente. Tenho certeza de que ele não estava ali antes. Detesto peças de murano. Mas estou cansado demais para pensar nisso. Preciso de um banho urgentemente. Vou até a suíte. Um pouco cismado, olho em volta. Tudo parece no lugar. Minha cama de madeira escura. A colcha branca e amarela. O quadro. Pensando bem, ele tinha mesmo a figura de um cavalo? Ah, claro que sim, eu lembro perfeitamente de quando o comprei. Foi justamente o cavalo que me atraíra.
Tomo banho e vou imediatamente para a cama. Passa-se pouco tempo, o rádio-relógio liga sozinho. Toca música sertaneja. Quatro horas da manhã. Jamais regularia o despertador para este horário. Muito menos nesta estação. Deve ser um defeito pois a data também está errada. Tento dormir novamente. Impossível. Levanto-me. Vou lavar o rosto e escovar os dentes. O creme dental está fora do lugar. Encontro-o na gaveta. Não é a marca que eu uso.
Abro o guarda-roupas. Em seu interior me chama a atenção um terno com risca-de-giz. Estou certo de que não possuia nenhum assim. Todos são lisos. Mas ele está perfeitamente ajustado, as mangas, as bainhas. Mesmo a cintura. Isso já está começando a me irritar. Ou preocupar. Ou assustar. Ou tudo junto. Volto à sala. O vaso não está mais lá. Porém a parede da sala de jantar está pintada de verde claro. Tenho certeza de que a parede era branco-gelo. Que brincadeira é essa? Como seria possível alguém pintar a parede naquela noite? Estou ofegante. O coração metralhando sangue nas têmporas. Tento chegar ao meu quarto mas não encontro a porta. Ela devia estar à minha frente, no fim do corredor. Mas ao invés disso está à esquerda, onde antes havia a estante. No cômodo, nenhum quadro na parede, apenas um poster de paisagem.
Escuto passos. São eles. Vieram me buscar. Preciso estar preparado. Preciso carregar a arma. Ela está no cofre que fica dentro do armário, chumbado na parede. Não encontro. Não existe nenhum cofre. Penso em ligar para alguém. Procuro um nome na agenda do celular. Inútil. Está em branco. Preciso fugir. Onde estão as malditas chaves do carro?

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dar-e-receberNa primeira vez que veio à minha casa vestia-se com roupas finas. Trouxe peças de louça e cristal, vinhos e frutas exóticas. Confessei-lhe que estava constrangido por ser pobre e não ter como retribuir tanta gentileza. Disse que não sabia como ele podia deixar o seu palácio para vir comer uma comida tão simples. Ele apenas sorriu. Antes de almoçarmos, rezamos juntos e eu pedi a Deus que compensasse sua generosidade.

Na segunda visita trouxe-me apenas algumas flores, aparentemente colhidas no campo. Reparei que agora usava roupas mais surradas que as minhas. Perguntei-lhe o que acontecera. Respondeu-me que perdera toda a sua fortuna. Espantado, afirmei que isso era muita injustiça, logo ele que era tão generoso! Deus não ouvira minhas preces. Indaguei-lhe se não estava revoltado. Como sempre, sorriu e me disse: Deus ouviu suas preces e manteve suas portas desinteressadamente abertas para mim, assim como eram desinteressados os presentes que eu trouxe. Saber dar e saber receber é um dos mistérios da vida. Muitos fecharam suas portas, agora que enfrento este infortúnio. Mas devemos saber dar, e também saber receber. Assim, eu recebo o seu acolhimento e a sua amizade com muita alegria.

Ninguém é tão pobre que não possa oferecer amor.

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Sinto-me terrivelmente sozinho. Sou o último da minha espécie. Ou o primeiro. Existem muitos bilhões de pessoas na Terra. Mas tenho certeza que nenhuma delas se parece comigo. O que me fazia tão diferente assim? Estava tão distraído que não a percebi na minha frente. Ela se materializara ou simplesmente eu não a vira se aproximar? Você, disse-me, não é diferente de nada. Seu próprio eu é uma ilusão defensiva. Franzi minha sobrancelha mas continuei escutando. A sua mente luta para criar esta ilusão. Mas se você procurar em seu interior onde está sua consciência, não vai encontrar. Por que ela não está em você. Olhou para o Sol. Não entendo onde você quer chegar, eu disse. Não tente entender. Sinta. Sente o calor do Sol? Você acha que seria possível você sentir o calor do Sol se você não estivesse ligado a ele? No entanto, nos iludimos que ele está a centenas de milhões de quilômetros de distância. O Sol e o Universo inteiro estão bem aqui, ao seu lado. Cada partícula, cada ser vivo. Porque todos são a mesma matéria, ou o mesmo espírito, se você quiser. Sequer faz sentido falar em perto ou longe sobre o que não está separado. A ilusão do eu tem sua importância em alguns momentos. Mas temos que saber abandonar este eu ilusório. E ver o eu completo. Só assim você percebe que a solidão é impossível. Se todos abrissem os olhos para a unidade da existência, não haveria guerras nem fome. Mas estamos num círculo vicioso. As pessoas supervalorizam o eu. Isso traz o sofrimento. Quando, por alguns momentos e por acaso, nos abrimos para a percepção da unidade, sentimos esta dor. E nos isolamos novamente para evitá-la. Nossa solidão alimenta o sofrimento e o sofrimento reforça nossa solidão.

Não sei se o que ela disse faz sentido. Mas olho para as nuvens no pôr-do-sol. Elas parecem diferentes. Um violeta profundo, misturado com amarelos. É intenso. Pareço fazer parte daquela imagem. Apesar de toda a beleza, logo sinto uma dor profunda. As lágrimas tomam meus olhos. Fecho-os. Não se desespere com a dor, posso ouvi-la. Espere um pouco. O amor é maior que o sofrimento, que está na superfície, como uma camada de poeira sobre a água. Mas é só esperar esta poeira submergir e todo o amor se revela. Sinta-se banhado pela água morna do amor. Abro os olhos e ela não está mais ali. Mas eu continuo sentindo sua presença.

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arvore-da-decisaoEstava paralisado pela indecisão, quando ele se aproximou.

– Está vendo a árvore?

– Sim, respondi, a desfolhada.

– Ela não está completamente desfolhada. Não vê aquela pequena folha?

Apertei os olhos e reparei numa última folha, no alto da árvore.

– Se você se concentrar, verá um formiga em um dos ramos.

Procurei a formiga, inutilmente.

– Aquela formiga está tentando chegar à folha. Mas veja que, se cada ramo bifurcar-se vinte vezes, entre ela e a folha existirão mais de dois milhões de opções. Se ela demorar apenas um minuto para tentar cada caminho, vai gastar cerca de quatro anos para esgotar todas as possibilidades. Mas uma formiga não vive nem seis meses.

Eu olhei para a árvore tentando ver quantos galhinhos existiam na copa. Deviam ser milhares, talvez milhões. Ele parou de falar como se esperasse alguma coisa. Uma brisa soprou, e levou a última folha para o solo.

Crédito da foto:
http://baixaki.ig.com.br/papel-de-parede/18862-arvore-Seca.htm

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