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Posts Tagged ‘literatura’

resistenciaAgnès Humbert teve a chance de fugir para o sul da França, antes que Paris fosse invadida pelos nazistas. Também poderia continuar com seu trabalho de bibliotecária, apenas observando a colonização de seu país. Mas ela sentiu que enlouqueceria se não fizesse alguma coisa para reagir. Em Paris, ela reuniu-se a uma dúzia de companheiros com a mesma sensação. O plano era simples, uma pequena organização com o objetivo apenas de trocar notícias, redigir e distribuir panfletos. Mas parte do grupo pagaria com a própria vida a reação. Eles sabiam que isto poderia acontecer mas não recuaram.

Agnés Humbert sobreviveu à escravidão. Foram anos de sofrimento em que ela lutou para manter a sanidade e um mínimo de dignidade. No livro “Resistência” ela relata os anos em que passou por esta provação.

A pergunta que me faço é como reagiríamos na situação vivida por Agnès. Será que teríamos sua força e coragem? A força e a coragem de uma mulher que não escolheu estar em guerra, mas escolheu defender a sua pátria.

”As mulheres sempre perdem a guerra. Não a querem, mas a perdem. Perdem quando estão no caminho dos exércitos e se tornam botim. Perdem quando batalham em silêncio nas cidades esvaziadas dos seus homens, para manter sólida a retaguarda e conservar a ordem do país. Perdem quando recebem os seus homens num caixão ou quando eles voltam com o equilíbrio despedaçado. Perdem quando se apaixonam pelo inimigo e quando o inimigo se apaixona por elas.”

Trecho do prefácio de Marina Colsasanti

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Este teste já foi linkado por muita gente. Mas nós o encontramos no blog de Jac Oliveira.

É imperdível para quem ama livros. Para fazer o teste, clique na imagem.

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leite-derramadoLeite Derramado, novo romance de Chico Buarque, chega às livrarias com a história de um homem muito velho no leito de hospital. O ancião, num extenso monólogo, conta a história da sua vida, da sua família, do seu único amor, de forma incerta, às vezes repetindo-a em diferentes versões. A memória do narrador se destaca como peça fundamental do enredo. Esta é inexata e incompleta, muitas vezes preenchida pela imaginação.  O texto de Chico é construído, segundo Leyla Perrone-Moisés, de maneira primorosa, tanto no plano narrativo como no plano de estilo. Há, a nosso ver, alguma semelhança com o romance de Machado de Assis, Dom Casmurro, em que Bentinho narra a história de sua família, sua infância e Capitu, seu único amor. O narrador de Leite Derramado conta-nos que Matilde, sua esposa, era uma jovem alegre e bonita, adorava ouvir maxixe e samba na vitrola, o que desperta nele o ciúme. Para explicar o sumiço da esposa depois do nascimento da filha, o narrador convence-se que ela o traiu e fugiu com um estrangeiro, entre outras versões. Bentinho, em Dom Casmurro, tenta convencer seus leitores de que Capitu o traiu. Não seria uma semelhança interessante? O discurso do ancião revela muitas vezes a sua dificuldade em narrar os fatos dolorosos de sua vida, como a morte do pai e a perda da esposa. E a espontaneidade do narrador se perde diante dos não-ditos e da ironia, elementos também encontrados no estilo de Machado.

Fazer essa relação entre Machado e Chico engrandece ainda mais o romance. Leiam e confiram!

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scott-e-zeldaA adaptação para o cinema do conto “O Curioso Caso de Benjamin Button” renova o interesse sobre a obra do escritor norte-americano, conhecido pelo romance “O Grande Gatsby”. A vida de F. Scott Fitzgerald foi bastante conturbada. Era alcólatra e sua mulher, Zelda, sofria de esquizofrenia, tendo sido internada várias vezes. Ambos viviam a vida como se cada dia fosse o último, o que condizia com os loucos anos 20. Ele morreu de colapso cardíaco aos 44 anos, sendo sepultado quase anonimamente.

A adaptação para o cinema, em que Bejamin é vivido por Brad Pitt, foi muito comentada. Indicado para 13 Oscars, o filme acabou ganhando 3, em categorias menos importantes. Mas a obra cinematográfica aproveita, praticamente, apenas a ideia principal, a de alguém que vive no sentido contrário do tempo.

Todavia, mesmo esta ideia, no filme, é bastante diferente do conto. Enquanto no filme, somente o corpo de Benjamin é velho ao nascer, na obra literária ele nasce com o corpo e a mente de um velho e, ao rejuvenescer, com o passar dos anos, vai se tornando menos experiente e mais imaturo. Considero este aspecto importante pois indica uma desvantagem no rejuvenescimento.

Mas, tanto o filme quanto o livro, tratam de uma questão comum ao ser humano. O tempo que passa e a velhice que chega para todos. Esta é uma questão que incomodava Fitzgerald, e que provavelmente estava na origem do estilo de vida que ele levava. Não por acaso o escritor admirava outro autor, que também escrevera sobre a velhice, Oscar Wilde. No famoso romance “O Retrato de Dorian Gray”, o personagem principal permanece jovem, enquanto seu retrato envelhece.

No filme estrelado por Brad Pitt, Benjamin participa de uma batalha naval contra submarinos alemães, situação inexistente no conto, em que há apenas uma rápida referência à participação de Benjamin na guerra dos Estados Unidos contra a Espanha, em 1898. Mas é exatamente nesta cena do filme que um dos personagens fala uma das melhores frases, que também não está no conto. É quando o capitão do rebocador, ferido de morte, declara que, quando chega a hora, você pode praguejar, ficar revoltado, mas não há mais nada a fazer senão aceitar a morte.

A inevitabilidade da morte une todos os seres humanos. Para quem tem ciência desta, os problemas têm outra perspectiva. O que parece importante para quem se acredita imortal é, muitas vezes, irrelevante para quem sabe que nossa estada no planeta é passageira.

Fitzgerald viveu intensamente e morreu jovem. Mas sua obra permanece.

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(Nova velha estória)

João Guimarães Rosa

Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos em juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.

Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.

Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: – “Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou”. A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.

E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeiinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.

Demorou, para dar com avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:

– “Quem é?”

– “Sou eu…” – e Fita-Verde descansou a voz. – “Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.”

Vai, a vovó, difícil, disse: – “Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençõe.”

Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.

A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: – “Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.”

Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:

– “Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!”

– É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta…” – a avó murmurou.

– “Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!”

– É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta…” – a avó suspirou.

– “Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido!”

– “É porque já não te estou vendo, nunca mais, minha netinha…” – a avó ainda gemeu.

Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.

Gritou: – “Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…”

Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.

Quem nunca ouviu a história de Chapeuzinho Vermelho quando criança?

Só depois que entrei na Universidade foi que tive a oportunidade de conhecer a história de Chapeuzinho Vermelho contada pelos camponeses europeus, o que me impressionou tanto quanto a versão conhecida na minha infância. Com o passar do tempo, a história popular foi adaptada e escrita por Perrault e pelos irmãos Grimm. A primeira versão escrita por Perrault era uma história para adultos. Os irmãos Grimm alteraram seu conteúdo erótico e adaptaram às crianças. Como amante da literatura, não poderia deixar de fazer referência à versão de João Guimarães Rosa, Fita Verde no cabelo.

A versão de Guimarães Rosa sobre Chapeuzinho Vermelho é muito criativa. Pode-se dizer que é um pastiche enriquecido pela nossa língua e cultura brasileira, por meio do doce em calda, dos neologismos. A fita, na literatura, tem vários significados e um deles é o de desabrochar. O Capuz Vermelho da história original remete à menstruação, enquanto a fita verde, à imaturidade da menina. Quando ela perde sua fita verde no caminho, entende-se que ela também perdeu a inocência. O narrador confirma esse entendimento no final da história, quando afirma que: “Fita-Verde mais se assustou como se fosse ter juízo pela primeira vez”.

Para quem tiver a curiosidade de ler a versão contada pelos camponeses europeus acesse aqui. Um abraço para todos e um bom fim-de-semana!

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Casulo

Maurício Correia de Mello

Setembro de 2007

Não sou capaz de registrar estas palavras em papel. Só me resta decorá-las uma por uma, na esperança de que um dia isso seja possível. Como um diário, escrito na minha mente. Claro que, assim, ninguém tem acesso. O meu diário não poderia ser mais íntimo. Meu cérebro é uma caverna escondida, esperando ser descoberta por arqueólogos.

Estamos na praça de alimentação de um shopping center. As pessoas passam por mim sem me olhar. Não é como se eu fosse uma peça de decoração, pois esta é feita para ser notada. Além disso, os vasos e cadeiras que nos circundam são obstáculos. Às vezes as pessoas tropeçam nestes objetos. Contudo não tropeçam em mim. Desviam o olhar e o corpo. Admito que não deve ser uma visão agradável, uma pessoa torcida feito uma árvore do cerrado, balançando sem vento, a face como um nó na madeira.

Só ele me vê. Minha cabeça pende imóvel, mas minhas mãos tremem. Ele se agacha e começa a puxar assunto. Pergunta-me as horas. Depois indaga se eu tenho fogo. Eu sorrio por dentro. Convida-me para dançar. Minha enfermeira grita com ele que eu não sou um brinquedo, que é uma falta de respeito. Mas ele a ignora e, ao som ambiente, começa a rodar minha cadeira com agilidade. A enfermeira tenta impedi-lo mas ele se desvencilha. Quando ela repara o riso no meu rosto, desiste e apenas fica observando. Eu não consigo falar nada. Não tenho controle dos meus músculos, nem para falar, nem para teclar num computador. Consideram-me deficiente mental. Mas eu apenas estou aprisionada num corpo inútil, que sequer permite minha comunicação com o mundo exterior. Aquela dança se completa na minha mente, onde estou de mãos dadas com meu par.  Meus pés são desenterrados como raízes arrancadas. Não estou mais na paisagem árida do cerrado. Estou ao pé de uma cachoeira onde ouço a música de uma orquestra de pássaros. Todos param para admirar a leveza e precisão de nossos passos.

Ele me conta que basta olhar nos meus olhos para saber o que eu quero dizer. Afirma ver a pontinha da asa rompendo o casulo. Diz para a enfermeira que me conhece das sessões de fisioterapia. Eu não me lembro. Continua a se encontrar comigo até que meus pais descobrem. Dizem provalmente tratar-se de um aproveitador, de olho no dinheiro da família. Tenho vontade de gritar com eles, defendendo-o. Ao invés disso apenas emito um ruído grotesco. E lágrimas. Meus pais afirmam que ele está me fazendo mal. Não conversam comigo, pois acham que eu não entendo. Falam para a enfermeira. Proibem-me de vê-lo. Mas a enfermeira está convencida de que não há mal e não respeita a ordem.

Ela me deixa regularmente no apartamento dele e vai me buscar depois de duas horas. Às vezes passa pela minha cabeça ele ser algum tipo de louco, com  um desvio de comportamento. Mas ele me coloca na banheira morna, depois me enxuga e massageia meu corpo, especialmente minhas pernas, até eu parar de tremer. E faz amor comigo delicadamente.

Passamos vários meses nesses encontros. Até que ele conta não me amar mais. Diz perceber meu sofrimento mas não poderia ficar comigo se não fosse por amor. Afirma ter-se apaixonado, mas esta paixão passou. Diz que é comum as pessoas terminarem relacionamentos e sofrerem. Comigo não poderia ser diferente.

É melhor a sinceridade. Mas encharco meu travesseiro. Não é só tristeza. Afinal, sofrer também é estar vivo. E só quem teve alguém ao seu lado pode vivenciar o luto da separação. Quando, passadas algumas semanas, sinto o bebê chutar, penso na ironia. O casulo não é mais tão inútil. Acalenta o corpinho de uma criança perfeita. Se ela tiver um pouco de sorte poderá, como o pai, enxergar asas coloridas através da seda cinza.

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orfaos-do-eldorado1A novela do escritor Milton Hatoum , Órfãos do Eldorado, despertou-me o interesse pela história da cidade de Manaus, pela expectativa de alguns brasileiros realizar o sonho de um Eldorado amazônico, por meio da seiva da seringueira e do crédito inglês. Fiquei com um gostinho de quero mais, ou seja, queria que o autor se aprofundasse mais ao contar a história dessa região e de seus habitantes. Nessa narrativa há oportunidade para se desenvolver um romance histórico.

Outro ponto que gostaria de abordar é sobre a índia, Dinaura, pela qual o narrador é apaixonado. Ela não tem voz na narrativa e o que sabemos a seu respeito é que está entre as órfãs das carmelitas em Vila Bela, que lê romances e enfeitiça Arminto. Sei que é a representação de uma personagem absolutamente excluída na vida real, mas na ficção, eu, leitor, queria muito ouvir sua voz. Imagino como seria interessante saber o que pensa, como é seu olhar diante do outro, o civilizado. A voz feminina que mais prevalece na novela é da mulher que criou Arminto, Florita. Mesmo assim uma voz quase inaudita, mas objetiva e visionária, que tenta, sem sucesso, advertir Arminto sobre a tendência de escolher um caminho desastroso. Recomendo os livros do autor que já li: Órfãos do Eldorado e Dois irmãos.

Órfãos do Eldorado, Milton Hatoum, Ed. Companhia das Letras, 107 pag.

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